“Eu e ele, eu com ele e eu na dele”

Pretendemos, com este trabalho, aprofundar o percurso evolutivo da relação terapêutica tida como um processo, tendo como protagonistas o terapeuta – Eu – e o paciente – Ele – dando ênfase aos seguintes aspectos:

  • “Eu e ele”, ou seja, o estabelecimento da relação empática entre duas pessoas distintas e independentes
  • “Eu com ele”, ou seja, o acompanhamento do paciente no seu discurso no “aqui e agora” de forma contingente
  • “Eu na dele”, ou seja, assumir a “eigenwelt” do paciente

(Assumir a Eigenwelt – Porque naquele momento a verdade do paciente é também a nossa verdade naquele momento)

ABSTRACT

Este trabalho pretende ser uma reflexão sobre o processo terapêutico tido como um percurso evolutivo que acontece baseado na contingência, no sentido do estabelecimento de uma relação empática entre duas pessoas distintas, no acompanhamento do outro no seu discurso, culminando no assumir da sua “eigenwelt”. Tendo em conta que muitos são os fatores implicados neste processo, procuramos contribuir com a sua explanação, nomeadamente no papel deste processo na organização emocional do paciente e na construção do “eu”; na importância de um outro contingente na relação que contribui para essa construção focando então a presença dos cuidadores. Também é desenvolvido o papel do psicólogo aquando da “falha” na relação com estes mesmos cuidadores. Como reflexão e sugestão individual, baseada na nossa prática terapêutica, visa-se ainda abordar a adequação das várias técnicas de intervenção psicoterapêutica às diferentes estruturas de personalidade do paciente. Neste processo importa ainda ter em consideração a vertente sócio-cultural do paciente e destacar o papel da comunicação verbal e não-verbal. Desta forma, o terapeuta promove restabelecimento do equilíbrio que irá ajudar o paciente a organizar-se emocionalmente.

Padrão fixo de ação – Lorenz:

Tendo em conta que o primeiro aspeto que pretendemos abordar é a construção do “eu”, esta implica que façamos uma pequena explicitação do padrão fixo de ação. Ao desenvolver os passos da Afectologia Genética, Maria Rita Mendes Leal baseou-se no padrão fixo de ação de Lorens e Tim Berger. O padrão fixo de ação caracteriza-se por algo de inato e que impele à comunicação com o meio. A proposta de M. Rita Mendes Leal promove a operacionalização do padrão fixo de ação, como base para a análise de contingência à própria iniciativa. Desta forma, o bebé de poucos dias não tem intenção em si, mas emergem comportamentos inatos de comunicação com o meio. Logo, para M. Rita Mendes Leal, este processo tem o aspeto de uma relação biológica, primitiva, ou seja, um diálogo, onde o bebé emite um som seguido de outro som emitido pela mãe em resposta ao bebé. A pausa entre os dois sons tem um papel importante na perceção que o bebé vai tendo de que existe um “Outro” que lhe é ou pode ser contingente. Isto traduz um diálogo entre o bebé e a mãe que, pelo prazer que desperta, impulsiona o despoletar de iniciativas tornando-se relacional e dialógico (M.R.M. Leal), no entanto é simultaneamente uma ação social e histórica (V’gotskíi). Este processo culminou no Treino do Ego em ação, que se caracteriza pela criação de esquemas mentais, que surgem através da forma como as emoções vão sendo trabalhadas, dando lugar a uma matriz relacional. Maria Rita Mendes Leal apresentou, assim, uma teoria em que salienta a construção, o desenvolvimento e a organização do indivíduo na relação com o outro (neste caso com o psicoterapeuta). Por conseguinte, o psicoterapeuta vai colocando hipóteses baseando-se nas iniciativas do paciente. Como refere V’gotskíi, “O psicólogo encontra-se com frequência na mesma situação do historiador e do arqueólogo e atua então como o detetive que investiga um crime que não presenciou” (V’gotskíi, 1999).

A construção do “eu”:

A construção do “eu” advém de um padrão fixo de ação, da relação com o primeiro cuidador, pois a criança, como já referido, já vem determinada com vários comportamentos inatos que a impelem à comunicação com o meio e este processo de comunicação fundamenta a característica social do ser humano – dá-lhe a capacidade de se relacionar, ou seja, de se instituir como um ser social. Como referiu Maria João Rio “A identidade do “eu” define-se pelo outro na medida em que este completa a sua intenção e, a vida mental, é concebida como uma construção a partir de padrões inatos de relação que têm um formato dialógico sendo o indivíduo modelado pelo grupo antes de obter a sua individuação.” (Maria João Rio, 2001). Como referiu Maria Rita Mendes Leal, “Verifica-se que, desde a primeira hora de vida, a criança procura um interlocutor válido, que faça sentido dos seus impulsos e desejos, para se construir como alguém: alguém que se vive como pólo de um diálogo-“eu”. (…) … o saber e o agir e todo o suceder é referenciado pelo humano a Eu-Me-Meu. Trata-se de uma afirmação: assertiva (eu), reflexa (me) e possessiva (meu). (…) que é o encontro com a identidade pessoal (…) como sendo uma construção progressiva e originária. (…) Alguém define-se como pólo de um relacionamento em que o proprius se configura reflexivamente: é objeto de um conhecimento, e sujeito de uma vivência adentro de um vai-vem de mensagens no qual o “eu” se define pelo outro, na medida em que este completa (confirma) a sua intenção” (Leal, 2003). Transpondo esta teoria para o processo psicoterapêutico, também este consiste num espaço de construção do indivíduo. Diz Maria Rita Mendes Leal, o que se pretende realizar no processo terapêutico, estimulando a capacidade de construção do “eu”, é “o treino do Ego em ação, ou seja, um trabalho concreto de intercâmbio e análise das relações entre a realidade e a fantasia interna, entre o que sai de mim e o que penetra em mim, o que eu aceito e o que eu deito fora, o que é meu e o que é do outro.” (Leal, 1994)

Passos da Afectologia Genética:

Para uma melhor compreensão do processo de construção do aparelho mental, Maria Rita Mendes Leal desenvolveu a teoria da afetologia genética, que segundo ela é “o estudo do desenvolvimento normal das estruturas de regulação emocional” (Leal, 1994). Desta forma, caracteriza-se por sete estádios desenvolvimentais, relativamente aos quais Quintino-Aires fez um paralelismo com as estruturas de personalidade – um sistema classificativo – são eles: 1º Passo – Orientação para a análise de contingência (é um estádio pré-verbal). Neste passo acontece o “vai e volta” como representação de prazer e/ou interesse, mas também o “vai e não volta” como representação de medo e/ou de raiva. Neste passo a paragem, ou seja, a pausa, do dar a vez ao outro cria o carácter Dialógico. A este 1º passo corresponde a psicose autística cujo vetor de funcionamento é a dificuldade de entrar em relação e a essência o desconforto. O 2º Passo – Reação circular de atenção (é um estádio pré-simbólico). Neste passo são criados metábolos de experiências de relação em que há trocas recíprocas e alternantes. A este 2º passo corresponde a psicose afetiva cujo vetor de funcionamento é a dificuldade de entrar em relação e a essência é a tristeza. O 3º Passo – Apontar a dois e referenciação, que impede o “vazio de significado”; acontecendo aqui a triangulação simbólica entre o “eu”, o “outro” e o “objekt”, podendo este último ser coisas, pessoas ou eventos, etc. A este 3º passo corresponde a psicopatia cujo vetor de funcionamento é a injustiça e a angústia. O 4º Passo – Elaboração pré-simbólica da experiência universal de perdas e reencontros – em que há o partir para explorar, sem medo de que ao voltar, o outro não esteja lá para si. A este 4º passo corresponde a neurose fóbico-ansiosa cujo vetor de funcionamento é a necessidade de controlo e a essência é a inibição e/ou não agência. O 5º Passo – Diferenciação do seu viver do dos próprios pais – em que acontece o “deitar fora” a narrativa do viver dos seus pais incorporada e o imaginário deles encarnado para poder assumir o seu “eu”. A este 5º passo corresponde a neurose histérica cujo vetor de funcionamento é a necessidade de controlo e a essência é a teatralização. O 6º Passo – Descoberta da parceria prazenteira fora da família – em que há uma procura do seu querer. A este 6º passo corresponde a neurose obsessivo-compulsiva cujo vetor de funcionamento é a necessidade de controlo e a essência é a racionalização/fazer inferências. O 7º Passo – Criação de significados pessoais e aproximação à maturidade – que culmina no terminar do processo de separação/individuação emocional. A este 7º passo corresponde a depressão cujo vetor de funcionamento é a desesperança (Quintino-Aires, 1998)

A relação dialógica em terapia:

Qualquer estrutura de personalidade configura-se como uma natural etapa do desenvolvimento do ser humano, podendo no entanto, ocorrer desarranjos desadaptativos no funcionamento regular da personalidade do indivíduo, quando as relações anteriores falharam, foram desadequadas ou inexistentes. A construção estrutural pode, assim, ser interrompida e interromper o desenvolvimento da Eigenwelt, favorecendo a desorganização interna. Desta forma, a relação dialógica em terapia, ao ser uma relação de contingência, permite ao paciente desenvolver ou alterar determinados padrões de pensamento, proporcionando a sua organização emocional e cognitiva dentro da sua estrutura ou a própria mudança de estrutura. É dentro da relação é que a estrutura muda! Desta forma, o terapeuta favorece o intercâmbio mutuamente satisfatório, em que há descargas emocionais no aqui e no agora; e liberdade de movimentação, dando lugar à livre iniciativa. Assim, o terapeuta pretende torna-se um 4º cuidador contingente.

A relação psicoterapêutica individual – Eu e ele:

No início do processo terapêutico encontram-se duas pessoas desconhecidas e diferentes uma da outra em que os papéis são absolutamente distintos: o psicoterapeuta por um lado com toda a sua “bagagem” de conhecimento teórico-prático para adequar a um paciente que, por outro lado, lhe chega muitas vezes desorganizado emocionalmente, em sofrimento e com todo o seu mundo interno construído (Eigenwelt) para “arrumar”. Como refere Maria Rita Mendes Leal “A característica mais saliente da entrevista dinâmica … é tratar-se de um encontro entre duas … pessoas até aí desconhecidas. A condução desta experiência … exige um rigoroso treino e o afinar de … capacidades de empatia e de liberdade associativa do terapeuta”. (Leal, 2003)

O papel do psicoterapeuta:      

Com o intuito de promover esta organização do paciente, focamo-nos agora no papel do psicoterapeuta, sendo que Maria Rita Mendes Leal refere que: “O profissional de psicologia que deseja ajudar alguém a encontrar o caminho para promover dentro de si mesmo o seu potencial humano e que, numa linha de isenção pessoal, assume o compromisso de acompanhar pessoas na difícil busca de liberdade e de realidade interiores, irá ver iluminarem-se territórios inesperados. Com a sua presença e olhar reflexivo, ecoará cada passo a percorrer e percorrido, com isso sustentando a confiança na compreensibilidade de vivências assustadoras e de riquezas inesperadas ou encobertas, até então desconhecidas do cliente, de que deverá assenhorear-se. (…) não poderá nesta caminhada exigente deixar de aprender a ser humilde e aceitante do seu papel de mediador, apenas instrumental – numa tarefa de transformação e de construção. (…) Esta tarefa é pertença única e exclusiva do cliente como sujeito da experiência de aprendizagem emocional – que o psicoterapeuta, ao assumir a sua ignorância e a sua impotência face aos objetivos reais da autodescoberta do outro, apenas acompanha e procura ajudar a clarificar” (Leal, 2003). Desta forma, esta relação a dois tem como fundamento teórico uma relação dialógica que se orienta através dos passos da afetologia genética, que promove a construção do “eu” e potencia o desenvolvimento emocional do indivíduo.

Comunicação verbal e não-verbal:

A par com o papel do psicoterapeuta, não podemos deixar de frisar a importância da comunicação não-verbal. A comunicação não-verbal encontra-se definitivamente ligada às emoções, uma vez que é através dela que o paciente vai deixando transparecer o que sente. Assim, o contributo da comunicação não-verbal na terapia é claro, tendo em conta que as emoções vão transparecendo através das expressões do paciente. O terapeuta deve ser o mais contingente possível. Trata-se de ter, não só a palavra adequada, mas também a postura adequada. Desta forma, é importante ser contingente à própria expressão do paciente. Referindo Maria Rita Mendes Leal “Mesmo que o psicólogo, cautelosamente, vá formulando para si próprio uma posição estratégica, a sua comunicação pode e deve apresentar-se espontânea e humanamente comprometida, na medida em que se deixa impregnar pela própria realidade do cliente, conforme lhe é transmitida no “aqui e agora”… Sendo complexa a mensagem que passa entre consultor e cliente, a transmissão tem de contar com os recursos da comunicação não-verbal.” (Leal, 2003).

Psicoterapia:

“No modelo relacional dialógico a psicoterapia é definida como uma análise psicológica, ou seja, um desdobramento dos elementos constituintes da reação mental.” (Maria João Rio, 2001). Esta análise psicológica caracteriza-se pelo lidar com as emoções como sendo parte integrante do processo de psicoterapia. As emoções são criadoras e integradoras de significados: choramos ou rimos dependendo dos significados e sentidos que criámos, porque os significados e sentidos são culturais, ou seja, a emoção torna-se socialmente mediada (V’gotskíi). Logo, as emoções estão relacionadas com as normas sociais que são aprendidas desde os primeiros meses de vida. No paciente é através da relação com o terapeuta que as emoções emergem no decurso do processo terapêutico. Assim, o terapeuta deve estar atento às emoções que possam estar associadas ao contexto cultural do paciente. Logo, deve saber lidar com as emoções que aparecem no processo terapêutico e ajudar o paciente a aprender a lidar com as suas próprias emoções. Segundo V’gotskíi, na psicoterapia “… ao agir-se sobre o sujeito com as palavras adequadas pode-se favorecer tanto a inibição quanto a excitação das reações condicionadas” (V’gotskíi, 1999), no sentido destas se tornarem mais frequentes, facilitando a alteração dos padrões de pensamento, favorecendo uma maior organização pessoal. Desta forma, “a psicologia deve pois, formular e resolver o problema da consciência na perspetiva de considerá-la como interação, reflexão, excitação recíproca de diferentes sistemas reflexos. É consciente o que se transmite a outros sistemas na qualidade de excitante e provoca neles uma resposta. A consciência é sempre um eco, um aparelho de resposta.” (V’gotskíi, 1999). O aspeto central e essencial do processo terapêutico é, sem dúvida, a linguagem, uma vez que “a linguagem é o instrumento do pensamento, o instrumento da análise do pensamento.” (V’gotskíi, 1999) Logo, o terapeuta deve ter um cuidado redobrado ao utilizar este mesmo instrumento, uma vez que é este instrumento que vai possibilitar ao paciente criar sentido do seu sentir. E porque o importante é o sentir e o pensar do momento, no “aqui e agora” do paciente, “a psicologia que é chamada pela prática a confirmar a veracidade do pensamento, não procura tanto explicar a psique mas compreendê-la e dominá-la…” (V’gotskíi, 1999). Sendo assim, o processo terapêutico, leva-nos a compreender de que modo este “sentir e pensar do momento” interfere com as várias áreas da vida do paciente.

O contrato psicoterapeutico:

Dando início à psicoterapia realiza-se um contrato terapêutico que estabelece um compromisso, e daí a importância das sessões ocorrerem no mesmo dia à mesma hora, sendo que, assim o paciente sabe que tem aquele espaço para si naquele momento. “O contrato psicoterapêutico consiste num acordo sobre as condições e horário do encontro profissional, numa continuidade de entrevistas. Contém, implicitamente, um propósito de promover a mudança (…) em que foi posto um parêntese na “queixa” e começou o “convívio” psicoterapêutico.” (Leal, 2003). Na psicoterapia a entrevista é um processo caracterizado e dividido tecnicamente por várias partes diferenciadas entre si, são elas: o início em que o paciente toma a dianteira, e em que o terapeuta realça o tema ou o contexto que o paciente coloca, dando um seguimento atento, acompanhando o seu discurso afim de promover a relação empática; o corpo central em que o terapeuta intervém realçando a sequência associativa, redirigindo o discurso, quebrando o curso da livre associação, observando outras reações e relações estabelecidas pelo paciente com o seu mundo interno e externo, trabalhando a informação através da “elaboração” e por último, o fim em que se “prepara” o paciente para a interrupção da consulta, desprendendo o paciente da área imprecisa, transicional de trabalho, promovendo o desligamento e apontar a realidade corrente “lá fora” para que o paciente possa regressar ao mundo fora do ambiente terapêutico. Como diz Maria Rita Mendes Leal, “a entrevista associativa é uma experiência global, em si mesma completa, da troca múltipla de comunicações entre pessoas (…) encarada como um processo que tem um início, uma corpo central e um fim – bem diferenciados entre si.” Partindo do princípio que a psicoterapia é um processo de intercâmbio em que “a reciprocidade do relacionamento e a alternância das contribuições fazem parte de um modelo estruturante dialógico da experiência” (Leal, 2003), revela-se muito importante neste processo terapêutico não deixar o paciente a “falar sozinho” (monólogo), criando ritmos de alternância nas comunicações adequados à personalidade do paciente.

Evolução do processo psicoterapêutico – “eu com ele”:              

A criação destes ritmos de alternância leva o terapeuta a acompanhar o paciente no seu discurso. Assim, e tendo em conta que “no processo terapêutico se promove a abertura à associação emocional livre ou semi-livre (…) a análise psicológica centrada nesta associação emocional constitui-se em si mesma como tratamento, no sentido de produzir mudanças estruturais na organização da personalidade, entendida como entidade psico-sócio-cognitiva.” (Leal, 2003). No entanto, isto implica disponibilidade para a mudança, uma vez que se não houver disponibilidade do paciente a mudança não ocorre. Ao longo do processo terapêutico, e a par com a mudança referida, conforme se vai avançando no desenvolvimento das estruturas de personalidade, o vazio afetivo vai diminuindo, vai reduzindo. No entanto, quando fora do processo terapêutico, este “preenchimento”, ao acontecer, pode ou não ser adequado, uma vez que pode ser preenchido com álcool, drogas, alimentação ou mesmo rituais; como na neurose obsessivo-compulsiva. O processo terapêutico vai, assim, evoluindo tendo em conta que o terapeuta “partilha o que dentro dele ressoa quanto ao processo”, possibilitando ao paciente “observar os automatismos em curso” e, através do alerta do terapeuta, captar “como essa distorção da espontaneidade molda o que ocorre no âmbito da consulta”. Desta forma, o paciente pode ponderar sobre o que está a ocorrer, sendo possível clarificar, de forma gradual, “aspetos automáticos de gestão de intercâmbio.” O paciente apercebe-se assim de “defesas” inconscientes, de que resultam reações percebidas como (…) desadaptadas da realidade.” (Leal, 2003). Assim, o processo terapêutico evolui cultivando a espontaneidade mas derrubando “automatismos incapacitantes e resposta emocional.” (Leal, 2003).

Do signo ao sentido das coisas do paciente:

Na psicoterapia pretende-se que a pessoa passe do signo ao sentido passando pelo significado, sendo que V’gotskíi afirma: “O significado da palavra é sempre uma generalização (…) Desenvolvimento do significado é igual a desenvolvimento da generalização! (…) No desenvolvimento varia a estrutura da generalização. (…) No significado sempre ocorre uma realidade generalizada.” (V’gotskíi, 1999). O desenvolvimento implica a formação de conceitos e um simultâneo processo de internalização. Assim, na relação a dois, o signo ganha um significado próprio, que por sua vez dá espaço para a formação do símbolo e consequentemente do sentido, ou seja, o signo, se falado torna-se em significado e este, por sua vez, se pensado torna-se sentido. A nível do signo – conceito espontâneo em V’gotskíi – e para que este se possa tornar significado, são utilizados instrumentos do exterior, nomeadamente a linguagem. Quanto ao significado, se for pensado no “mim”, ainda que não interiorizado ele transforma-se em sentido. O sentido – conceito científico em V’gotskíi – representa o sentir do significado, mas agora interiorizado com o mundo interno do paciente (V’gotskíi). Desta forma, os passos da construção do “eu” são progressivos. Segundo Maria Rita Mendes Leal, “o saber e o agir e todo o suceder é referenciado pelo humano a Eu-Me-Mim. Trata-se de uma afirmação assertiva (eu), reflexa (me), e possessiva (meu).” E que traduz o encontro com a identidade pessoal, como uma construção progressiva e originária. “Alguém define-se como pólo de um relacionamento em que o proprius se configura reflexivamente: é objeto de um conhecimento, e sujeito de uma vivência adentro de um vai-vem de mensagens no qual o “eu” se define pelo outro na medida em que este completa a sua intenção…” (Leal, 2003). Assim, o “eu” tem a ver com aquilo que eu sei que é suposto fazer, ou seja é ter noção do que se espera; para que exista o “me” deve-se refletir sobre o que se faz; o “meu” traduz-se no que eu sei que vem de mim e que eu sei que me pertence. Desta forma, este é um caminho progressivo em que o “eu” tem uma forma própria de sentir as coisas porque fazem parte de si.

Técnicas de intervenção relacional:

No processo psicoterapêutico, várias são as formas de abordagem e de intervenção relacional. Assim, neste processo podem ser utilizadas técnicas gerais, que são técnicas de fundo, sempre presentes ao longo da psicoterapia, como a compreensão empática (através da Umwelt – entendida como o mundo físico real, o mundo externo – versus a Eigenwelt – entendida como o mundo próprio construído) para que o paciente se sinta compreendido e aceite independentemente das suas crenças e valores; a análise contingente do intercurso, ou seja, ser contingente acompanhando o paciente no seu discurso com trocas recíprocas e alternantes para poder assumir/palpar a sua eigenwelt, experienciando a dois uma sintonia; pôr verbo, ou seja, nomear e pôr sentir, isto é, apontar a dois, verbalizar o sentir e o acontecer, sendo que isto pode ser por vezes inconsciente no paciente. As técnicas específicas são para serem utilizadas tendo em conta o discurso do paciente, nomeadamente a repetição que consiste em repetir algumas palavras relevantes do paciente; a marcação (Uhm, Uhm!) que não dá espaço ao silêncio, despertando no paciente mais intensidade para o seu discurso ou desvalorização do mesmo; o eco-emocional, em que se constata a emoção, captada na comunicação, dá-se nome à emoção; a re-expressão, em que é repetido, de forma sintética, o mais importante do discurso do paciente, mas aqui nomeando o seu sentir, lendo nas entrelinhas; a focagem em que se sublinha determinado assunto, colocando o “dedo na ferida”, visando aumentar a ansiedade, para que o paciente sinta vontade de mudar; a generalização em que se baixa a ansiedade, generalizando as coisas para os outros, implicando todos os outros. Estas técnicas específicas vão sendo utilizadas ao longo da utilização das técnicas gerais, ou seja, através das técnicas gerais são colocadas em prática as específicas que se devem adaptar ao paciente. No caso da focagem, é importante referir que o psicoterapeuta deve ter o cuidado de a utilizar no início ou no corpo da consulta uma vez que promove o despoletar da ansiedade, enquanto que a generalização deverá ser utilizada no final da consulta, visto que reduz os níveis de ansiedade. Por último, as técnicas pontuais, raramente utilizadas, visto que já exigem por parte do paciente um alto nível de insight. São elas a tradução em que se colocam as coisas de forma simples na psicologia, mostrando os movimentos internos emocionais que o paciente vai deixando transparecer e a interpretação em que se apontam conflitos internos.

Personalidade e contingência:

No decorrer do processo terapêutico é de extrema importância ter em conta a estrutura de personalidade do paciente, uma vez que será essa a base para todo o delinear da intervenção do psicoterapeuta. Assim, revela-se fundamental adaptar as várias técnicas de intervenção à estrutura de personalidade do nosso paciente. Há formas de interação que não são sentidas como agradáveis para o paciente mas que são necessárias para a mudança, mas o paciente pode não dar esse espaço ao psicoterapeuta sentindo que é invadido. Há ainda a salientar que utilizar as técnicas menos adequadas face à estrutura de personalidade do nosso paciente, poderá ter um efeito adverso ou contrário ao que é pretendido: poderá cristalizar padrões de pensamento ao invés de promover a sua alteração e desenvolvimento afim de permitir ao paciente organizar-se, crescer e evoluir. Como refere Maria Rita Mendes Leal “Pode-se observar que os clientes reagem, cada um a seu modo, à estratégia do psicoterapeuta de criar ritmos de alternância nas comunicações. Alguns sentem-se extremamente gratificados (…) dando-lhes a sensação de estarem a ser atendidos. Para outros (…) apresenta-se como extremamente invasivo. (…) a intervenção do psicoterapeuta visa aceder às estruturas elementares da organização do “eu” na sua relação com o “outro”, e aclarar a posição relacional modelada e assumida internamente. Assim prepara o parceiro deste intercâmbio para o trabalho de construir ou solidificar a instância “eu”.” (Leal, 2003). Tendo por base a nossa experiência profissional, pareceu-nos pertinente efetuar uma breve reflexão sobre a adequação das diferentes técnicas de intervenção às várias estruturas de personalidade. Desta forma, verificamos que as técnicas gerais podem ser utilizadas ao longo de toda a psicoterapia com todas as estruturas de personalidade. No entanto, na utilização das técnicas específicas afigura-se-nos importante salientar que, apesar de todas as técnicas poderem ser utilizadas com todas as estruturas, o uso de algumas é mais adequado para determinadas estruturas de personalidade que outras; no sentido em que podem ser mais promotoras da mudança. Assim, pensamos que, na psicose, para que os pacientes se sintam acolhidos e mais confiantes para falar se utilize mais a compreensão empática, o eco-emocional e a focagem. Na psicopatia, para se evitar a cristalização, ou seja, para não cristalizar ainda mais os padrões de pensamento do paciente, parece-nos mais adequado utilizar a repetição e a marcação com muito cuidado. Nesta estrutura parece-nos acertado utilizar o eco-emocional uma vez que, desta forma, se preenche o vazio emocional do paciente. A utilização da re-expressão é também pertinente, uma vez que, deixa o paciente a pensar. Na neurose fóbico-ansiosa, para que o paciente se sinta cuidado e de forma a conseguir conter as suas emoções parece-nos importante utilizar, para além da compreensão empática, do eco-emocional e da focagem, a marcação e a repetição. Nesta estrutura não nos parece adequado utilizar a focagem, uma vez que esta técnica lhe aumentaria ainda mais os níveis de ansiedade (já parte integrante da sua estrutura). Na neurose histérica, tendo em conta que os pacientes têm um discurso muito consistente, com dificuldade em ouvir-se, parece-nos adequado utilizar a re-expressão e a repetição colmatando assim a necessidade de se ouvirem; a marcação também nos parece muito importante para deixar cair o que não é relevante do seu discurso (uma vez que relatam muita coisa sem especial interesse para o processo psicoterapêutico). Nesta estrutura, não nos parece tão adequada a utilização do eco-emocional uma vez que os pacientes já conhecem as suas emoções ainda que não as reconheçam. Na neurose obsessivo-compulsiva parece-nos muito importante o uso do eco-emocional para nomear as emoções, uma vez que estes pacientes têm extrema dificuldade em exprimir as suas emoções, assentando o seu discurso na racionalização. A focagem é também muito importante uma vez que aumenta a sua ansiedade, permitindo ao psicoterapeuta chegar ao que eles não gostam de mexer: as suas emoções, levando-os a sentir. Na depressão visa-se que os pacientes pensem nas suas coisas de forma diferente, pelo que nos parece mais adequado utilizar a compreensão empática, a re-expressão, o eco-emocional e a generalização. Desta forma os pacientes vão sentir-se compreendidos. É pertinente utilizar a generalização em todas as estruturas no final das consultas para baixar a ansiedade, com o objectivo de que o paciente não saia da consulta ansioso e perturbado.

Assumir a Eigenwelt do paciente – “eu na dele”:

Outro aspeto fundamental do processo psicoterapêutico é, sem dúvida, o assumir da Eigenwelt do paciente. A Eigenwelt é o mundo interior/próprio, construído do paciente, com ressonâncias afetivas, que envolve também a relação do indivíduo com ele próprio. Para que o terapeuta consiga aceder à Eigenwelt do paciente tem que ser contingente ao conteúdo do paciente, servindo de espelho, tendo no entanto, o cuidado de não refletir exatamente o que se vê, isto é, entrar na fantasia com um pé na realidade. Trata-se então, de ir para onde o paciente está. É como se para o conseguir, o paciente dissesse: “Quer saber quem sou? Tem de vir para onde estou.” Só assim poderá conseguir entrar no mundo interno dele – estar “na dele” – proporcionando-lhe a possibilidade de sentir o que não sente sobre o que sabe.

Contingência e ambiente sócio-cultural:

Assumir a Eigenwelt do paciente implica também, ter em conta as suas crenças e valores, sendo que o terapeuta não deve permitir que o seu mundo sócio-cultural o guie, mas sim que seja guiado pelo mundo do paciente. O psicoterapeuta não deve deixar que a sua realidade interfira como a realidade do paciente. Maria Rita Mendes Leal refere: “Se é certo que o psicoterapeuta deve cultivar a espontaneidade, não se pode esquecer de que deve, também, fazer um esforço para conseguir um grau relativo de adaptação às características culturais e pessoais do seu interlocutor do momento.” Quanto a isto V’gotskíi também nos diz que “Toda a diferença entre a consciência e o mundo decorre apenas do contexto dos fenómenos”(V’gotskíi); contexto este que o psicoterapeuta não poderá ignorar, sob pena de não conseguir assumir a Eigenwelt do paciente para o compreender plenamente. Sobre isto, refere ainda V’gotskíi: “Os estados subjetivos – isolados do espaço e das causas – não existem por si mesmos.” Dito isto, o psicoterapeuta só conseguirá ajudar o paciente a organizar emocionalmente o seu “eu” se, ao ser contingente ao ponto de assumir a Eigenwelt do paciente, não ignorar a sua Umwelt. Como diz V’gotskíi: “é tão impossível estudar a psique sem o comportamento, como o comportamento sem a psique.” (V’gotskíi, 1999).

Conclusão:

A busca constante por parte do ser humano da satisfação de carências básicas e do bem-estar nem sempre é conseguida de forma simples e fácil; é aliás a mais difícil das tarefas. No processo terapêutico pretende-se, assim, que o paciente possa “mudar o modo de se entender com os seus “objetos internos (…) de forma a ultrapassar os e gozar de melhor saúde mental.” Desta forma, tem a possibilidade de alterar padrões de pensamento, ou seja modificar o seu pensar para modificar o seu agir, permitindo-lhe uma melhor, mais adequada e equilibrada organização emocional e pessoal. No processo psicoterapêutico promove-se assim uma transformação para a mudança, ainda que esta mudança possa ter avanços e recuos com situações de crise. Mas a mudança implica sempre uma crise, porque aceitar a mudança nem sempre é pacífico, implica uma satisfação alcançada através de reações adaptativas. Como refere Maria Rita Mendes Leal, “Se um paciente aceitou a proposta, de análise psicológica supõe-se que está convicto de que esta poderá conduzi-lo no caminho de satisfazer as suas necessidades básicas: a necessidade de amar e ser amado; a necessidade de se encontrar valioso perante si mesmo e perante os outros; e a necessidade de fazer sentido da vida da morte, da cultura, da fantasia.” (Leal, 2003).

Sílvia Pereira, Dra, Alexandra Alves, Dra, 2006

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Sílvia Pereira

Sílvia Pereira, Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta e Especialista em avaliação psicológica, com um percurso marcado por décadas de prática clínica, investigação e formação contínua, a nível nacional e internacional.

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