Dores de crescimento do amor

Mês de Fevereiro, mês do amor, dos namorados e dos casais apaixonados. Mês em que se celebra um marco cultural importante: o dia dos namorados e o mês do amor.

Se falarmos do ponto de vista científico, o amor enquadra-se numa categoria psicológica que tem por base fisiológica a última das estruturações cerebrais e também a última das estruturações da personalidade. Logo, trata-se da última fase no desenvolvimento cerebral humano. Como tal, implica experimentar para crescer e se desenvolver.

Para todos nós, o amor caracteriza-se por ser um vínculo emocional forte onde prevalecem e se manifestam os afectos. Ou seja, é um envolvimento psicológico que remete não só para o fascínio pelo outro mas também para uma necessidade muito desejada de realização amorosa. E amar implica demora, dedicação, esforço e compromisso, mas também comunicação, convivência, partilha de valores, sem esquecer a importância de olhar o mundo da mesma forma e, claro, a tolerância da opinião do outro. Caso contrário não pode haver amor. Como tal, amar obriga à tomada de consciência sobre o outro e sobre si mesmo; consciência esta que alimentará a intimidade que torna as duas pessoas envolvidas numa relação, cúmplices uma da outra; sejam namorados ou casados. 

Por isso mesmo, a relação amorosa é um espaço onde muitas vezes se experimentam os encontros e os desencontros do entendimento mas também do desentendimento a dois. É um espaço onde é importante gerir expectativas individuais e comuns de forma real. E o que caracteriza um casal é a forma como consegue lidar com estes desafios e superá-los. Como tal, este relacionamento interpessoal, que neste caso é uma relação amorosa, permite vivenciar sensações, sentimentos e experiências que revelam a nossa capacidade de viver e experimentar a nossa existência. Obviamente, adaptação, reestruturação, flexibilidade, tolerância são todos aspectos importantes que devem ser considerados se queremos ter uma relação amorosa saudável e sólida, mas principalmente que nos faça felizes.

Consequentemente, o crescimento de uma relação amorosa implica gerir a relação por forma a que haja um desenvolvimento, por um lado, individual de cada elemento da relação, mas também comum a ambos adentro desta mesma relação. Por isso mesmo, numa relação amorosa é importante encontrar realização, alegria e felicidade. Claro que há os tais desentendimentos e desafios a superar mas a felicidade deve ter sempre mais peso e mais impacto no geral para que possamos chamar-lhe amor, a mais forte das forças que nos aproxima de uma pessoa.

Mas crescer e desenvolver-se é um dos maiores desafios do Ser Humano, nomeadamente para atingir a maturação cerebral necessária para uma relação amorosa saudável e solida. É um facto. Implica mudanças e mudar a forma de sentir e pensar e a forma de agir é algo exigente e muitas vezes doloroso. Se já é uma realidade individual, maior se torna a exigência numa relação a dois. Mudar obriga a sair da zona de conforto e abraçar o desconhecido, a tal mudança; o que deixa, muitas vezes, espaço para a insegurança.

Nesta insegurança, a mudança faz-nos muitas vezes sentir ameaçados uma vez que os caminhos que se abrem são desconhecidos. Por isso, a mudança no desenvolvimento obriga-nos a reestruturar o nosso sentir e forma de pensar inúmeras vezes e nas mais diversas situações. E, é nestes momentos que o crescimento e o desenvolvimento individual, pessoal e também interpessoal e relacional encontram espaço mental para acontecerem.

Naturalmente, os conflitos aparecem mesmo entre pessoas que se amam. Isso é inevitável. Afinal, numa relação amorosa são duas pessoas diferentes e únicas com histórias de vida próprias, sendo que ambas estão num processo de desenvolvimento individual emocional. Lidar com o desenvolvimento do outro também é um desafio. Tolerar e respeitar a opinião do outro por mais que esta seja diferente da sua, encontrar um equilíbrio e dar espaço para a diferença contribui para o crescimento e construção saudável de ambos e da sua relação amorosa. Contribui para o crescimento do amor. Mas ninguém disse que é fácil. Não é.

Tendo em conta que os relacionamentos afectivos são muitas vezes construídos de forma pouco sustentável, importa também aqui salientar que, em muitos casos, a incapacidade de criar vínculos emocionais (inerente à falta de maturação psicológica) contribui de forma acentuada para as dificuldades nos relacionamentos amorosos. Contudo, a incapacidade de assumir um compromisso – o que também reflecte falta de maturação cerebral – é a principal causa de instabilidade nestas mesmas relações.

No entanto, e apesar do referido, quando o fim de um relacionamento acontece é, geralmente, um momento de dor, mas também contribui para o crescimento e desenvolvimento interno individual e relacional do Ser Humano. Logo, é mais uma oportunidade, uma mudança para o desenvolvimento e relacionamento interpessoal. Saber lidar com o que sente nestes acontecimentos de vida é difícil, mas faz toda a diferença para ultrapassar a dor e crescer para o amor. É um processo que não acontece de um dia para o outro, leva o seu tempo mas faz crescer e contribui para a maturação cerebral.  Ou seja, a pessoa fica mais preparada para novas situações futuras.

Não há dúvida de que a vida actual é um stress: a família, a casa, o trabalho, as rotinas, em suma, as correrias do dia-a-dia. Mas não poderia deixar de salientar ao terminar este texto que esta realidade faz com que tenha todo o sentido celebrar o dia dos namorados e o amor. É mesmo importante! Porque desta forma celebra-se o que as pessoas sentem uma pela outra. E isto é muito importante! Celebra-se o estar juntos, o partilhar as suas vidas em conjunto e tomar consciência do bem que sabe ter aquela pessoa disponível para nós. Sim, porque uma relação amorosa implica que o outro tenha disponibilizado a sua vida para a partilhar connosco. E se nos disponibilizarmos interiormente também, o amor está ali para nós, para nos ajudar a crescer.

Este dia, esta celebração ajuda-nos a repensar e a tomar consciência sobre a nossa relação a dois e sobre como ela é na realidade. Isto vai ajudar-nos a lidar com a mesma de uma forma mais leve e mais fácil porque real. E por último, mas não menos importante, ajuda-nos também a permitir o desenvolvimento das nossas estruturas cerebrais, nomeadamente a maturação do nosso cérebro para sermos seres mais saudáveis e mais felizes no amor e na vida.

Sílvia Pereira, Dra, 2018

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Sílvia Pereira

Sílvia Pereira, Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta e Especialista em avaliação psicológica, com um percurso marcado por décadas de prática clínica, investigação e formação contínua, a nível nacional e internacional.

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